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Arcade Fire, 'Reflektor'



A ambição é um fator importante que decide se a glória vai abraçar tal banda. Pelo menos é o que eu sinto. Concerteza, quando eu olho o conteúdo visual de Reflektor, o quinto disco bem sucedido do Arcade Fire — sendo este, lançado como um álbum duplo — eu vejo os ares de um disco épico sendo pronto para se entregar ao mundo de tal forma como outros grandes álbuns duplos já fizeram. Quando os vocalistas fundadores do Arcade Fire, Win Butler e Regine Chassagne, declararam "Se este é o céu/Eu preciso de algo mais" na poderosa faixa-título, eles não estavam brincando nenhum pouco. Ao longo de uma sonoridade mesclada com disco ao estilo "Miss You", dos Rolling Stones com o pop-rock dos anos 80 que chega muito perto de "Walking on Thin Ice", da Yoko Ono, o Arcade Fire e seu novo co-produtor, James Murphy, do LCD Soundsystem, colocaram idéias magistrais que fazem Reflektor aspirar gloriosamente à grandeza.

Nesse trabalho bem desempenhado, o casal que forma a banda canta aquelas partes em "Reflektor" com uma forma tão perfeita que acabei tirando a conclusão de que a banda amadureceu seriamente como nenhum outro grupo de nosso tempo conseguiu: eles se tornaram consideravelmente grandes. Claramente, a primeira música se tornará em um hino particular da banda e desta década atual. Tudo ainda é muito recente para os dois canadenses: é um resumo perfeito da fome de grandeza que este grupo estava quando havia nascido na cena indie e que, após uma década plena de sucesso no mainstream, e de forma bastante específica e decisiva, Reflektor nos mostra um material indulgentemente ambicioso. Historicamente, é um álbum duplo com 13 canções preenchendo os 75 minutos de duração deste disco de grandes influências: baseado, contudo, na sonoridade do Haiti, da música disco dos anos 70, do rock dos anos 80 e o amadurecimento de seu som. 

Valeu muito a pena esperar por seu lançamento porque a banda provou que seu novo álbum é uma grande surpresa. E que surpresa! Reflektor é chocante, mostrando competentemente a união do talento da música dançante de Murphy e a sabotagem pós-punk totalmente natural do Clash com a sonoridade notoriamente associada ao rock de arena do Arcade Fire. Gravado no Haiti há uns três anos atrás, Reflektor foi lapidado e concebido, mas não existe nenhuma coincidência: Chassagne é descendente de haitianos, por isso ela e Butler estiveram bastante ocupados ajudando o país a se reerguer. Na produção, Murphy trabalhou em todas as canções, principalmente nas faixas que ultrapassam os seis minutos de duração. O grande resultado é um feito épico para fazer todo mundo dançar. Em "We Exist", o pop é totalmente inclinado para o lado do Cure no final dos anos 80, enquanto que "Flashbulb Eyes" traz o reggae como principal função. Mas ainda temos o Talking Heads por aqui, esbanjando seu espírito jovial dos anos 80 estilo Remain in Light, com sua percussão haitiana em "Here Comes the Night Time". 

Certamente deve ser um grande sucesso. Por mais que o Arcade Fire seja uma grande banda de rock, eles não tocam rock & roll por acaso. Eles sabem muito bem o que fazem. Um grande exemplo do que estou relatando é que a banda soa de forma bastante humorada em "Normal Person", na qual Butler canta como se estivesse a frente do Velvet Underground com um piano inspirado unicamente em Little Richard, um dos pioneiros do gênero. "Joan of Arc", a faixa que encerra o disco um de Reflektor, é um épico punk hardcore. Mas a energia cai rapidamente, causando uma grande surpresa para os meus ouvidos. A música surge do nada para uma conclusão inevitável: suspiros e teclados, com Chassagne cantando em francês através do som eletrônico se deformando lentamente, entrando de forma imaginária dentro do fogo, ardendo devagar. É muito dinâmico. É mágico. 

Esses dois discos tem humores diferentes que mudam ao ouvir o disco um e o dois, mas também tem o seu lado maníaco, psicopata, melancólico, e até mesmo exuberante. É claro que a mensagem central do álbum vem de um mito grego que relata sobre o arrebatamento, a separação e o reencontro dos amantes Eurídice com o músico Orfeu (retratado na capa do disco). Na linha "Parece que isso nunca acaba/Aqui vem a noite mais uma vez", Butler se refere misteriosamente na reprise de "Here Comes the Night Time".

Além dos gêneros que cercam o rock disciplinar, amadurecido e grandioso da banda, a música dançante também tem seu espaço em Reflektor: ouvimos uma sonoridade industrial misturado com funk, levado pelo vocal influenciado pelo camaleão David Bowie em "It's Never Over (Oh Orpheus)", uma grande música que lembra muito "Blue Monday", do New Order, em "Afterlife". 

Eu diria que é irresistível afirmar que Reflektor do Arcade Fire é o álbum duplo de conteúdo glorioso musicalmente lançado desde Exile on Main Street, a obra-prima dos Rolling Stones de 1972. Estes dois grandes álbuns duplos são iguais em termos de musicalidades épicas, cada um em sua época. As semelhanças são infinitas, mas Reflektor está muito mais perto de clássicos mais diversificados, como Kid A, do Radiohead, e Achtung Baby, do U2. O grande fato é que Reflektor é o álbum que provavelmente vai atrair muito mais gente para conferir sua música desde Funeral, de 2004. O grande motivo desta afirmação é porque Reflektor é o melhor disco que o Arcade Fire já fez.

Por Leonardo Pereira

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